Qual o real propósito quando servir ou ser visto está relacionado a vida espiritual?

      Na vida espiritual, servir e ser visto se apresenta de forma dicotômica de um lado a humildade genuína do outro a vaidade disfarçada. Essencialmente servir está ligado a capacidade natural do ser em exercer o altruísmo, sem buscar reconhecimento pessoal.

      Ao passo que o desejo de “ser visto” vem com o autocentramento e uma exaltação que normalmente vem ligada a uma ostentação religiosa.

      A etimologia de “servir” pode estar indicada ao conceito de submissão e subordinação quando vamos a sua origem no latim, cuja derivação vem de servire, que significa "ser escravo" ou "estar ao serviço de". Trazendo desta forma um olhar de dependência.

      Essa raiz etimológica reflete a ideia original de dependência e prestação de serviços a outra pessoa ou entidade.  Com o passar do tempo a palavra vai evoluindo e ganhando uma expansão que além de uma relação de dependência, "servir" pode também significar prestar um serviço, estar a dispor de alguém no sentido de uma ação de ajuda e apoio, e não necessariamente submissão. 

      Quando ampliamos este verbo a outros adjetivos que apresentam virtudes como: humildade, gratidão, amor e comunhão começamos a identificar tais valores intrínsecos em diversas tradições religiosas.

      O que implica em revelar no sentido da humildade sua derivação em latim que é a mesma de “húmus”, que significa "terra" ou "solo fértil". Descrevendo um aterramento ou “próximo ao solo”, que dentro da Umbanda é tão bem representado no ato de bater cabeça, onde além da reverência e respeito reconhecemos a máxima que diz do pó ao pó.

      Uma terra fértil, disposta a receber e cultivar sementes, apresentando a capacidade de aprender e evoluir através do servir.

      São inúmeras as partes dos evangelhos que apontam a Cristo como um grande “mestre” mas, sobretudo sua maestria estava fundamentada no servir, dedicando sua vida ao serviço através do amor ao próximo.

      Gratidão e amor, sentimentos intrínsecos do ser quando o mesmo busca o servir como motivação, não busca reconhecimento de seus pares ou admiração de quem quer que seja. Expressa um verdadeiro ato de amor a Deus. Como a celebre frase de Madre Teresa de Calcutá que diz: “No final das contas é tudo entre você e Deus, nunca foi entre você e as outras pessoas.”

      Muito se fala sobre comunhão, a qual aqui descrevo como a capacidade de somar para ganhar junto e não sobre o outro. O servir em comunhão deve promover a união entre as pessoas e jamais segregar.

      São muitas as formas de descrever o servir quando o ato é feito pelo sentido em si, mas descrever o seu oposto também.

      Em seu oposto a verdadeira motivação é o orgulho e a vaidade ainda que velados. Ostentação exibindo espiritualidade e religiosidade sem amor buscando o olhar de aprovação e pertencimento dos outros.

      Pessoas que por questões sociais muitas vezes vivem à margem da sociedade como invisíveis. Passam a ver o servir através de uma religião como forma de ser alguém, pertencer a um determinado grupo.

      Muitos vivem pautados em aparência onde o ter, ganha relevância sobre o ser, fazem da fé um meio para obtenção de desejos pautados em uma demanda subjetiva.

      E são nesses momentos onde encontramos uma tensão entre o servir e o ser visto, a religiosidade quando vivida sem o verdadeiro religar pode levar a superficialidade, onde ritos e ritualísticas são apenas um fazer cênico para impressionar ao outro e muitas vezes até para convence-lo a colaborar com a “obra”. O verdadeiro servir pede entrega e desinteresse e não deseja converter a ninguém.

      É necessário olharmos nossas sombras e nos questionarmos sobre verdadeiramente qual é a motivação por trás do ato de servir.

      A minha ação está em ser privilegiado em estar neste plano e ter o livre arbítrio e poder servir por amor a Deus e ao próximo ou faço como alimento para o meu ego que precisa impressionar ao outro para que eu me sinta pertencente?

      Que esta questão possa fomentar outros olhares...

       Antonio José Reis

Neuropsicólogo e Psicanalista
Instagram: antoniojosereis.terapeuta
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